
Uma deficiência da Universidade é não ensinar aos alunos o valor do seu trabalho. A tabela do Conselho é defasada, me formei em 2004 e os preços eram de 1999. Na consulta eu incluía os procedimentos, alguns medicamentos, sendo que consulta é só consulta. Cada coisa deve ser cobrada separadamente. No consultório eu trabalhava com preços muito baixos. Eu achava que estava recebendo bem e que a culpa da falta de grana era o movimento fraco mesmo.
Uma consulta de rotina para vermifugação de um filhote, por exemplo, eu cobrava somente a consulta, orientava o proprietário, examinava o animal e dava o medicamento via oral. Se eu fosse colocar na ponta do lápis eu saia feliz porque trabalhava com uma consulta de 30,00 e o medicamento custou no máximo R$ 0,50. Acontece que o veterinário começa a ganhar dinheiro quando ele passa a pensar como administrador, como médico. Eu não estava ali para vender um medicamento de R$ 0,50, eu estava ali para auxiliar, orientar, entender o problema e resolver, não posso pensar como lucro no medicamento, mas o quanto eu ganho por tudo que faço. O que eu deveria cobrar era, por exemplo, R$30,00 da consulta mais R$2,00 do medicamento mais R$ 2,00 do procedimento, que era administrar o medicamento via oral. Agora sim eu estava valorizando todas as etapas do serviço prestado.
Então quando eu comecei na clínica com Renata, eu não sabia trabalhar valorizando o meu serviço. Achava que ela explorava mesmo, não conseguia entender que ela estava me ensinando a grande lição do valor do meu conhecimento.
No início eu ficava com vergonha de cobrar, ficava na obrigação de dar um desconto, e essa foi a primeira lição, eu não era loja, não tive desconto com meus gastos de faculdade, não posso dar desconto em serviço, poderia ser em algum medicamento vendido, e mesmo assim de 5%, o máximo de desconto que as empresas dão pra a gente em pagamento à vista, quando dão, é de 3%.
E muitas outras lições vieram depois dessa.
Eu não quero só ser veterinária, quero viver da minha profissão.
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