Quando a gente lida com animais, todo cuidado é pouco. É como uma criança que "cega" a gente. Há alguns dias eu fui fazer uma consulta, de uma gata, a Raquele. A dona chegou dizendo que queria fazer uma consulta oftamológica, que a gata estava com um "probleminha" nos olhos... e colocou a caixa de transporte em cima da mesa de atendimento. Então eu coloquei a caixa em cima de uma cadeira e disse: vamos fazer a ficha primeiro!
É basicamente isso, fazemos a ficha, fechamos a sala toda, colocamos o gato em cima da mesa e examinamos, depois guardamos o gato na caixa, abrimos a sala para não morrermos de calor e finalizamos a consulta...
Quando eu fui ver, a proprietária já tinha tirado a gata da caixa, querendo dar água para ela, e eu dizendo que ainda íamos fazer a ficha de atendimento,que ela tivesse paciência..
- Cadê minha gata?
Quando eu olhei, a Raquele estava na janela já ganhando sua liberdade, para nosso desespero.
Saí da clínica, gritei Denys, que largou o cachorro meio tosado, e fomos correndo atrás da gata...
A proprietária gritava, "Quelinha... fique parada" e a gata corria como louca em direção ao muro...
Quando ela subiu no muro, parou para pensar, e eu falando bem baixo: vamos fazer silêncio e chegar devagar...
"QUELINHAAAAAAAA"
"SHHHHHHHHHHHHHHHH... vamos fazer silêncio, senhora"
"QUELINHAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA"
"Ah meu Deus,.. corre Denys, pega lá"
Mas antes dele agarrar a gata, ela já tinha pulado para o terreno ao lado.
O terreno do lado tem o tamanho de um estádio de futebol, está abandonado há 20 anos e toda mata atlântica já foi reestabelecida.
Para entrar lá só com facão, bota 7 léguas e sorte.
Nesse dia, Denys e eu passamos seis horas procurando a gata. A dona estava aborrecida, falou um monte de coisa para os estagiários sobre a sala não estar fechada quando ela teve a infeliz idéia de adiantar tudo e tirar a gata da caixa.
Eu entendo o aborrecimento dela, e ficaria muito triste se fosse minha gata. Se ela tivesse fugido das minhas mãos, do banho e tosa, eu ficaria muito aborrecida também. Mas só pelo fato da gata ter fugido antes da consulta, das mãos da dona, mas pela minha janela, me deixou preocupada e triste.
No final desse dia, a gente havia encontrado a gata nesse matagal seis vezes, e em nenhuma delas nós fomos capazes de capturá-la. Da única vez que Denys botou as mãos em Raquele, ela fez questão de deixar sua marca, para que ele nunca mais esquecesse.. e correu.
No final do dia, meus braços estavam arranhados e machucados por causa da cansanção, que é uma planta maldita, minha cara e meu colo vermelhos por causa do sol, minha tatuagem de gato queimada pela metade,fui para casa visivelmente exausta.
Beto ainda veio me dizer que eu deveria ter feito xixi em cima do braço para tratar as queimaduras de cansanção. Eu já saí de lá esgotada, arranhada, triste, arrasada, frustrada, e ele ainda queria que eu saísse mijada.
Essa história continua...
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