domingo, 19 de setembro de 2010

Era uma vez um Boxer

Era uma vez um boxer que nasceu fraquinho. Ele era o menor da ninhada e seus irmãos não o deixavam mamar. Sobreviveu como pôde e no final do desmame os mais fortes foram embora, e ele morou com o papai e a mamãe. Difícil era a vida até então mas a ração ele já conseguia comer sem disputar.
Até que uma noite estava frio e ele dormiu embaixo daquele carro bem quentinho. No sono profundo ele não percebeu que o carro ia saindo até quando passou por cima dele acidentalmente. Os mestres do papai e da mamãe prontamente levaram o refuguinho para o doutor, que tratou de colocar as "peças" no lugar. Acharam que não fosse sobreviver e ele pensava "não, gente, ainda sou bebê, ainda tenho que brincar, ai ai ai... tá doendo... bola? isso é uma bola? ahhh, não consigo brincar agora, vou dormir, amanhã eu brinco". E decidiram chamá-lo Bolinha.
E o Bolinha cresceu. Não corria como os outros mas corria como podia. Brincava, o tempo todo que estava acordado, cheirava os cantos, as pessoas, as plantas... mas não mais os carros. Corria com uma cadência própria, meio de lado, como se mancasse e rebolasse mais que qualquer outro boxer.
Então um casal de mestres resolveu levá-lo para outra casa. Agora a casa era só dele. E ele tinha um espaço enorme para cheirar e descobrir, e novos mestres para amar. Então depois de pouco tempo chegou outro cachorro, todo desarrumado. Ele parecia ter nascido errado porque não tinha o focinho achatado: "Veio estragado de fábrica", pensou o Bolinha, e seus mestres resolveram chamá-lo de Pequeno.
Um dia o Bolinha ficou com um dodói na cabeça, que coçava, coçava, e nunca sarava. O mestre levou no doutor de novo que tratou de dar para o Bolinha o capacete mais legal que qualquer boxer poderia ter. Era difícil dormir ou comer no início, e se antes o Bolinha não identificava de onde vinha o chamado, agora então que era mais complicado. Mas o Pequeno invejou aquele capacete e o Bolinha se sentia mais especial. A mestra insistia em chamar aquilo de colar elizabetano, e o Bolinha pensava "colar é coisa de menina, isso é o capacete da sabedoria". 
Todos os dias os mestres passavam pomada no dodói para melhorar e quando eles se afastavam o Bolinha perguntava para o Pequeno: E aí, melhorou o dodói?
"Não, não sei, não dá pra ver, tem uma coisa branca em cima, deixa eu lamber pra tirar"....... "pronto, tirei... não, Bolinha, não melhorou ainda, mas tá quase."
Então a irmã do mestre, que também era doutora, falou que o Bolinha tinha que tomar um comprimido duas vezes por dia, e usar o capacete da sabedoria mais tempo. Mas também ela era ruim, furou o Bolinha, tirou sangue dele para fazer um exame e os mestres ficaram apreensivos. O Bolinha agora chamava os remédio de pílulas do poder. E o Pequeno não tinha inveja, mas muita admiração por aquele irmão mais velho.
Depois de uns dias os mestres do Bolinha estava muito felizes, o dodói já havia sarado e eles abraçaram os dois, dizendo: Que bom Bolinha, você não tem leishmaniose, que felicidade. O Bolinha pensava: "Mas é claro que eu não tenho, ninguém me deu isso, você tem, Pequeno?"
"Não, Bolinha, não tenho também, ahh, ninguém me dá nada".
E eles continuaram o dia a dia, agora sem o capacete da sabedoria ou os comprimidos do poder mas o Bolinha havia completado o ciclo do crescimento, era oficialmente o chefe daquela matilha de dois cães, e um gato como intruso.
A mestra até que deixava o bando entrar em casa quando o mestre não estava, mas eles sabiam que deveriam sair e cuidar de todo espaço lá fora. Essa era a função deles. Cuidar da casa que lhes dava tanto amor.
Então uma noite os mestres saíram e os deixaram em casa. Já estava bem tarde quando o Bolinha ouviu um barulho. Era alguém entrando na casa deles, sem ser convidado. Um convidado nunca tentava entrar pela janela, e o Bolinha não pensou duas vezes quando mordeu aquele homem indesejável. Na verdade considerando a raça, o Bolinha nunca pensou duas vezes em nenhum momento na vida. 
O homem então gritou, tentou afastar o Bolinha, que chamava de boca cheia: "Vemm Pequeno, não deixe esse homem entrar na nossa casa." até que PÁ!. Foi um barulho muito alto, e o Bolinha sentiu uma fisgada no pescoço. 
Com a boca cheia se sangue, sem saber se era dele ou do homem, ele não soltou, e o homem ainda gritava quando o Bolinha enfraqueceu e o deixou partir. "Vem Pequeno, vamos atrás dele, ele não pode fugir"... mas o homem já ia bem longe, e o Bolinha ficou cansado. 
Já bem distante da casa, os dois viram quando o homem ia embora e o Bolinha sentou-se. "Vamos ficar aqui, Pequeno, vigiando, ele pode voltar" 
"Bolinha, aquele homem te machucou"
"Não importa, Pequeno, senta do meu lado que eu vou te contar uma história.... 
Nem sempre eu fui o chefe da matilha, na verdade eu era o menor de todos e ninguém acreditava que eu fosse sobreviver. Quando o carro passou por cima das minhas pernas eu fui levado para um doutor que me deu um remédio para dormir enquanto me consertava. Nesse dia eu sonhei com um homem que me disse: 'Bolinha, seja forte, porque você tem uma missão. Você vai ter uma vida mais difícil, mas será muito feliz. Você vai viver com uns mestres que te amarão profundamente e vão cuidar para que você cresça forte e saudável. Bolinha, na verdade você será o dono deles e terá que cuidar deles para sempre. Um dia vão tentar  machucar os seus mestres, invadir a casa deles e será sua missão não deixar que isso aconteça. Bolinha, se você falhar, o homem ruim vai esperar seu mestre voltar para casa e machucá-lo muito, e cabe a você não deixar que isso aconteça. A sua vida na Terra, Bolinha, vai ser abreviada nesse dia, mas você continuará presente como um anjo daquela família. Lembre-se Bolinha, seja forte, você não pode falhar.'
E foi assim Pequeno, por isso que eu sempre usei o capacete da sabedoria, e tomei as pílulas do poder. Para ser forte e hoje passar para você a sua missão. Eu agora preciso dormir, estou cansado, fique aqui do meu lado, fique vigiando esse lugar. Agora, Pequeno, eu passo para você a missão de cuidar dos mestres. Na terra. E eu estarei presente também, você só não vai me ver sempre, mas de vez em quando. Se bobear, eu como a sua ração... eh eh eh."
"Entendi Bolinha, chega pra lá, vou deitar aqui do seu lado, fico com você até você dormir. E quando o mestre chegar eu vou contar para ele onde você está, para que ele possa te levar para casa."

Este post foi dedicado ao meu irmão e sua esposa, que perderam seu companheiro, o Bolinha, na madrugada de 18/09/2010, em uma tentativa de assalto. Sejam fortes e lembrem-se que ele estará sempre presente.

17 comentários:

Lya Lilith disse...

Que lindo Alice. Me tirou lágrimas dos olhos (coisa difícil!). Essa noite sonhei com vc. #melhora
Bjs

Blog da Joaninha disse...

Oh!! Alice não sabe como me doeu a alma este relato... sou amante dos animais, e é muito triste, saber que no mundo existem pessoas tão cruéis, mas tb tenho certeza que o Bolinha cumpriu de fato sua missão. Diga aos seus parentes serem fortes, pois a dor só o tempo curará, e a lembrança permanecerá para sempre em suas vidas. Gostaria de sua autorização para estar publicando este post em meu blog, claro se vc concordar, bjss no seu coração!!

cachorrando disse...

Oi Alice !
já tenho vindo aqui há algum tempo mas nao tinha comentado ainda.
Adoro seu blog, a forma como vc escreve , é muito bonito. Parabens por tudo, fiquei triste pelo bolinha, mas com certeza ele está feliz por ter cumprido sua missao. beijos !
Bianca

Beatriz disse...

... e esses valentes guerreiros possuíam um forte quase terminado, Bolinha não teve nem a oportunidade de sentir o quão poderosos poderiam ser.

"que criatura nova é essa sem focinho e com rabo, deixa eu morder bem aqui pra ver o que acontece"

O Bolinha vai sempre estar com a gente, essa sempre a casa que ele protegeu antes de partir.
Obrigada Alice!

Beatriz

disse...

Que homenagem linda e emocionante!
Conheci o Bolinha e fiquei indignada com essa maldade.
Bjos.

Rosa disse...

Fiquei emocionada...
Gostaria de ter conhecido o Bolinha e seus amigos!
Dá um apertão bem gostoso no Pequeno?

Posso contar sua história no meu blog, hem? Com todos os créditos....não, faço melhor, mando o pessoal vir ler aqui...

Beijos, Rosa

Carina disse...

Lindo texto que só poderia vir de alguém que ama os animais com a alma.

Suelen disse...

Quue liiiiiindooo...
No começo teve algumas gracinhas...Mas no final, que triste....
Conforto para os "mestres"..

Você é ótima!!!

Art by Lu disse...

Chorei =(
Lindo seu blog, parabéns.

Paty *-* disse...

Olá Alice!
muito emecionante está história, confesso que cherei ao ler, é muito triste saber o quanto as pessoas são más a ponto de fazer essa crueldade com um animalzinho que só estava defendendo a sua casa.
Vou aproveitar o post para te elogiar pois sou tua fã..
sempre que posso venho ver as novidades, fazia um tempinho que não vinha aqui e não reconheci o blog quando entrei, tive que procurar o post da sua tatuagem para ter certeza que era aqui mesmo..
mas ficou otima as mudanças, ta cada vez melhor..
vou fazer um blog novo para mim e venho aqui te visitar...

grande abraço
e da um upa no pequeno por mim...

Cassia disse...

Oi, Alice! Texto lindo e emocionante, apesar da história tão triste, daquelas de cortar o coração. Parabéns pelo blog, gostei muito do que li até agora!

Alison disse...

Triste, comovente e emocionante. Parabéns pelo blog!
Alison André
Fortaleza-CE

Sabrina disse...

Nunca, NUNCA pare de escrever. Eu conheci hj seu blog, estou lendo tudo que vc publicou, mas esse, em especial, me fez comentar. Estou estudando veterinária e vc não imagina o quanto vc está ajudando, não somente a mim. Esse relato do bolinha me cortou o coração. Eu gostaria de ouvir suas histórias pessoalmente, tomando um café, rindo e chorando com os relatos. Um beijo. Sabrina

Leandro disse...

Obrigado por compartilhar essa linda história, Alice amo o seu blog.

Leandro, estudante de veterinária.

Leandro disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
talita disse...

parabêns pelo blog!!! é muito emocionante porem triste tambêm

Jaqueline Bispo disse...

Bela e comovente, como as grandes histórias de heróis.
Estou emocionada...