quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

Emergências Parte 2


Quando a gente fica de plantão, tudo pode acontecer. Não saímos de casa para atender emergências procurando um culpado, mas uma solução.

Eu estava em minha casa, de plantão, em uma sexta-feira da Paixão. Mamãe estava em Brasília e havia me ensinado pelo telefone a fazer o bacalhau cremoso com pimentão vermelho e amarelo. O maior sacrifício foi encontrar esses pimentões em Ilhéus. Eu fiz tudo que ela explicou, direitinho, montei o prato no pirex e o telefone da clínica toca. Ahhhh... logo na sexta-feira da Paixão??

- Doutora, eu estava passeando com meu poodle, o Bobby, no bairro e ele comeu alguma coisa que está muito mal, acho que foi veneno de rato!!

Corremos para a clínica, cuidamos do Bobby, realmente ele estava intoxicado. Mas sexta-feira da Paixão não é dia de comer veneno. Voltei para casa por volta das 3 horas da tarde, terminei o bacalhau, fui para a casa da sogra e todos já tinham almoçado. O bacalhau ficou maravilhoso mas ninguém comeu, só no outro dia, bacalhau de geladeira. 

Envenenamento por "chumbinho" é muito comum em várias regiões do país. Apesar de estar proibido, as pessoas ainda vendem, ainda compram, ainda colocam no quintal, ainda intoxicam seus animais, ou os do vizinho. Sem contar na casuística gigante de envenenamento de crianças por esse "produto'.

O mais importante do atendimento de emergência é estabilizar o paciente. Certa vez, quando eu ainda tinha um consultório dentro do petshop, eu atendi uma intoxicação por "chumbinho" em um cocker idoso, na casa do proprietário, de madrugada. Quando eu fiz o atendimento e ele aparentemente estava estável, às 2 da manhã, eu o sedei para fazer uma lavagem gástrica, ele começou a respirar muito mal....  com edema pulmonar, e sedado, não conseguia ficar em pé para respirar. Resultado: após medicá-lo para aquela condição, eu passei cerca de uma hora segurando a cabeça do cachorro de frente para um ventilador, até ele sair da sedação, às 3 da manhã. Todos na casa do proprietário estavam dormindo, e eu ali acordada, segurando o cachorro para respirar, porque o dono achou por bem colocar veneno de rato. Eu deveria acordar um por um e falar: bora, levanta, vamos ficar acordados, reunidos, para salvar a vida do Toddy.

Envenenamento é o que mais ocorre em emergências. Eu nunca havia perdido um animal envenenado com veneno de rato. O primeiro que eu perdi foi o Nick, poodle da minha cunhada. Foi um dos piores atendimentos em feriado que eu fiz. Foi o mais triste... e foi tudo tão certinho, seguindo um protocolo... mas não teve como salvar o Nick. O envenenamento seguinte foi de uma gata, a Xana, também de madrugada, também veio a óbito. Também foi triste. 

Eu não gosto de sair de casa para atender e não salvar. Nem sempre a gente salva. Me consolo com a idéia que pelo menos o animal teve atendimento, e que eu fiz o que pude.

Para melhor conhecer as ações e efeitos do chumbinho, eu selecionei um material da Anvisa com Perguntas e Respostas sobre esse produto. 



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• Diário de uma Veterinária


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2 comentários:

Anônimo disse...

Dá dando aula hein??
Gostei, muito interessante, mesmo.. os proprietários nunca apredem...

Sulyane Salles disse...

Acabei de perder uma pincher por envenenamento,pois era noite e não tinha clinica veterinária aberta,to em pedaços!!!