segunda-feira, 17 de novembro de 2008

A criação pode trazer problemas? II


Os nomes citados no texto foram modificados para preservar a identidade do animal e do proprietário e para praticar a minha criatividade em criar nomes.

Eu atendi o Ziluinho, que é um mestiço de ET com a espécie canina, e se acha um poodle dos mais cheios de regalias. O Ziluinho tinha 2 kg, sendo que um deles de dentes afiados, e parecia um pinscher preto com fiapos de pêlos longos e arrepiados. A queixa da proprietária era que Ziluinho  mordia o próprio tornozelo até se machucar. Foi levado a vários veterinários para tratar desse problema de pele.

Ziluinho era muito bravo, quando foi solicitado à proprietária, Dona Sulamita, que colocasse e focinheira no animal ela dizia: 

Mas doutora, ele não quer!!

Ela ia com a focinhieira, ele tirava com a pata, então ela dizia:

Doutora, ele quer brincar com a focinheira!!

E colocava em uma patinha, depois na outra, depois na mesma, depois na outra... e eu esperando..

D. Sulamita, eu preciso que ele esteja de focinheira para poder examinar a pele, ou a senhora segura ele?

Eu não, doutora, ele me morde!!

Depois de 45 minutos conseguimos conter o Ziluinho, quando pude examinar a lesão. Não havia problema de pele, as lesões eram auto-infligidas, características de um problema comportamental. A proprietária chegava em casa e ele se estressava, começava a se morder, quando era contrariado ou quando alguém sentava na sua poltrona preferida. Várias situações levavam àquele comportamento.

Quando terminei o exame a dona Sulamita me disse:

Pronto doutora, posso ninar meu bebê agora? 

E começou a balançar o cachorro e cantar "Meu cãozinho Ziluinho, o que eu sinto por você só com palavras, não sei dizeeeerrrrr". 

Eu não sabia como dizer àquela senhora que o seu cão se mordia porque ele não era tratado como cão... ele era completamente dependente do amor e da presença da proprietária, pedia colo o tempo todo, chorava... aquele trocinho arrepiado havia perdido sua identidade e descontava no próprio tornozelo.

Difícil foi convencer D. Sulamita que o problema era simples, complicado era fazê-la mudar de atitude. Ela foi embora, deve ter levado Ziluinho para outro veterinário que resolvesse o "problema de pele" dele, pois ele não tinha motivos para ter estresse e era muito feliz.

Recomendoo blog Cãosciência

PS: Essa cantoria me lembrou quando uma senhora levou um cão atropelado e pediu para cantar para ele durante o atendimento, porque ele ficava calmo. Eu permiti quando ela começou:

"Do jeito que Juninho me olha, vai dar namoro!! Do jeito que Juninho me ooooolha vai daaar namoro!!"



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• Diário de uma Veterinária


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8 comentários:

Butterfly disse...

Realmente esse problema é mais comum do q se pensa...

Vicente disse...

Cara... que coisa louca

o mais divertido em trabalhar com consulta medica, técnica ou seja lá o que for, é se preparar para as surpresas que aparecem... nada mais surpreendente do que lidar com o ser humano.

Heneile disse...

Eu canto Pro Bill me deixar dar banho sem problemas...as vezes funciona...eles de repente nos domesticam...

Dilmani disse...

Acabei de ler todas as narrativas. Estão ótimas. Você é mesmo uma pessoinha especial. Deveria ser escritora, ia mandar bem.

Bjs. Tia Dilmani

Nancy disse...

Alguns proprietários precisam ser tratados simultaneamente com seus animais...

Paula disse...

Concordo totalmente c Nacy!!!
Pena q veterinário não pode prescrever pro proprietário, nem q seja uma terapia... rrrssss

samantha disse...

Floral na veia, rsrsrsr.

DryMartini disse...

só tenho a dizer: KKKKKKKKKKKKkkkkkkkkkKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKkkkkkkkkk É FÓVEA!!!